Segunda-feira, 20 de Julho de 2009

...

Meus ilustres convidados,

Estou em falta convosco e não me perdoo por isso. Mas, tenho andado tão ocupada que lá tentei que se sentissem à vontade por estas bandas. Vocês, também, pelos vistos, que isto de aproveitar o fim-de-semana em Azeitão, na Arrábida ou em Vilamoura, sempre serve para qualquer coisa.

 

Mas, agora, recebo-vos como mandam as boas maneiras, que isto de receber os descendentes directos do Rei, com sangue azul a correr nas veias e darem-me a mim, serva ignorante, a honra da Vossa Visita, no mínimo, o que eu tenho que fazer, é tentar retribuir, dignamente e com humildade, claro.

Que eu, sei bem qual é o meu lugar.

Nada de confusões (desculpem a linguagem, mas estou emocionada!) É que o Domingos, o moço da estrebaria do feudo, acaba de me anunciar que à festa vinha também a Família Real e o Alto Clero, com a respectiva comitiva.

Mas, passando esta emoção (até chorei), eu, mulher do povo, habituada como estou a rudes trabalhos, pus logo mãos à obra. Arregacei as mangas, pus o pano do pó atado na cabeça, uma bata lavada e avental e comecei por preparar a casa. De alto a baixo. Com a escova que o Domingos, o moçoilo, me emprestou, aquela que usa para lavar o estábulo.

Esta tarefa está cumprida.

Comprei um bom tapete para pôr na entrada da casa (ai, lá se vai a poupança para a Capitação, mais o tostão de Pedro), muito macio que os Pezinhos de Suas Majestades (uma vénia … não esquecer), não têm calosidades como os meus.

Juntei as mulheres na salmoura geral, disse-lhes que precisava de ter toda a louça que pudessem dispensar e foi o que se viu. Tenho a casa cheia do que preciso e as servas todas a ajudar. Lavámos tudo na salmoura, louças, canecas, tudo, o que era necessário, carregámos para a minha humilde casa, a custo, porque, além das calosidades, também tenho varizes (dizem que é mal de circular do sangue, eu cá digo que é de amanhar a terra.)

Isto, sim … isto assim é que é. Somos servas, mas somos trabalhadoras, sérias,  sabendo, sempre, qual é o nosso lugar.

Desta gente é que eu gosto.

Neste momento, tenho tudo pronto, lavado a preceito, para receber Suas Altezas, o Alto Clero e os descendentes directos. Mais os acompanhantes (são sempre tantos), as aias, as damas, os pajens, escudeiros, cavaleiros e, claro, os servos. Mas, desses, já as servas, como eu, se juntaram para lhes dar tecto e comida. Que esses são cá dos nossos e é uma honra, para nós, tê-los na estrebaria.

Bom… mas, ia eu dizendo, tenho tudo pronto e ainda tenho algum tempo (o Domingos está no cimo do monte, à espera, para dar o sinal) para me arranjar. Preparei a salmoura, meti-me lá dentro e, com a escova com que retiro a terra dos pés e das unhas, escovei-me toda.

Pus os ferros a aquecer nas brasas e que lindos caracóis tenho eu. A seguir, dobrada no couro, retirei a minha melhor vestimenta. Só a uso nas festas com que, de vez em quando, o meu Senhor Feudal nos presenteia. Um bom Senhor Feudal. Há outros que nada dão.

Calcei as melhores polainas (ai os meus pés, que dores …é que já me acostumei às usadas … e não me posso esquecer que não me devo descalçar, nem esfregar os pés um contra o outro … seria uma vergonha!)

Mas não me vou esquecer. Ora essa! Sou serva, ignorante e lenta da cabeça, com aquele sangue que não circula, mas vou saber estar. E já avisei toda as servas que não se pusessem à espreita. Ficaram zangadas comigo. E tiveram razão. Que isto de serem servas, ignorantes e lentas de cabeça, sabem, como eu, prestar o servilismo.

Que calores eu sinto… vou ali beber uma tisana.

Falei com o Domingos e dirigi-lhe um pedido. Que fosse à terra dos mouros, às terras da Nobre AP, para comparecer também. A Nobre é de outro estamento. Também presta vassalagem ao Rei e ao Alto Clero, mas eu percebo pouco dessas coisas. Só sei que sou serva e a minha pobre cabeça não foi feita para entender estas coisas tão difíceis.

Mas o Domingos foi bem avisado. Nem precisava, que ele sabe o lugar dele (os servos são assim, todos amigos) mas avisei que não passasse da porta do Castelo mas que tivesse a certeza que a Nobre AP soubesse do convite. E, só depois, podia voltar.

Dizem que esta Nobre até nem é má pessoa. Um bocado mandona, mas também tem que ser assim, mão de ferro nos servos. Que eles os há e bem precisam. Mas trata os seus servos com comida farta e não carrega na Capitação, nem no Tostão de Pedro. Uma Nobre nobre. Até consta que aparece, no cimo do castelo e faz um aceno, nas festas dos servos.

Acabaram de me dizer, com um toque na casa, que se aproximam.

Estou pronta.

Sentada direita, oiço os cascos dos cavalos.

Um último olhar pela minha modesta mas honrada casa e sim, está tudo em ordem.

Quando todos se forem embora e como esta Nobre também presta vassalagem e é a última a sair, a Nobre que não me venha fazer reparos. Ela gosta de umas matérias, eu gosto é da minha vida e das minhas matérias (sei lá eu, o que é isto de matérias, perguntei aos meus amigos servos e ninguém me soube dizer, nem o artesão.)

Que o meu Senhor Feudal é outro. E a ele sou servil. Posso dizer-lhe, à saída, com os seus Nobres Pés no meu tapete, que se meta na vida dela.

Com todo o respeito que ela merece que eu, apesar de pertencer a outro Nobre, sei bem qual é o meu lugar. (Uma vénia … não esquecer).

E, agora, desejem-me sorte, ó servas do meu Senhor. Que esta serva saiba dar um grande repasto.

 

 (meu ex-caro anónimo): recebi o seu comentário. Não o vou publicar. Aceito as suas desculpas, mas não o quero nesta festa. Talvez… qualquer dia… possamos tomar um café. Que diz?

 

 

publicado por Gabriela às 00:53
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