Domingo, 4 de Outubro de 2009

...

 

 Conheci-o numa pós graduação, que escolhi fazer.

Era à noite, longe do trabalho e de casa, num palácio de difícil acesso, vazio, frio (tinha uma capela daquelas antigas J) e do parque de estacionamento, a vista era a antiga Lisboa, com o Tejo próximo (a Lua, às vezes, impunha-se).

Eram fascinantes as aulas dele.

Bebia, sôfrega, tudo o que saía dali.

Ele era feio fisicamente, mal feito de corpo, desconjuntado

Feio de cara, mas com um olhar inteligente, profundo e suave.

Achava-o bonito.

Leccionava duas cadeiras, no âmbito, da especialidade dele

Que, claro, se encaixava, no curso e em mim.

Acabou o ano. Descansei. Depois voltou-me a apetecer andar a vaguear, (gosto de vaguear, sou errante, sem eira nem beira).

E achei que era engraçado vaguear, de novo, por aquelas águas.

E fui.

O senhor, é director de uma faculdade, “onde se pretende estudar o comportamento humano”. Cercou-se e alicerçou-se, escolhendo quem ele queria, para cimentar mais o seu poder. É influente. Aparece “como “na” TV”, nos jornais, organiza conferências e congressos, com o show, bem montado e com tudo a condizer.

(tirando algumas comunicações … era tudo uma cagada).

Ao longo do ano, tive duas cadeiras com ele. As aulas, ao princípio, continuavam a seduzir-me. O discurso, também, tudo na mesma proporção com que apreciei a minha decepção, o meu desencanto. Pela postura. Pela arrogância. Pela falta de respeito com que tratava os alunos. Pela deselegância. Pela falta de educação.

Ao mesmo tempo, ia apreciando a mudança na face. Aos poucos, lentamente, começou a parecer-se com uma ave. O rosto, a forma da boca, o nariz, levemente adunco, o cabelo, até o modo como dava por finalizada a aula e se levantava da cadeira. Como uma ave a preparar-se para iniciar o voo.

Por último, tornou-se mesmo numa. Daquelas necrófilas, urubus que voam em círculos. Andava aos círculos com a turbe, num pântano medonho, cheio de surpresas aterradoras, um qualquer monstro que de repente surgia ou emergia ou, se deixa tombar de cabeça para baixo, coisas peganhentas e nojentas que apareciam, assim do nada e que provocavam em mim, estremecimentos.

Não gosto de estremecer, (mas adoro espreguiçar-me).

Não foi preciso dizer nada à minha canoa. Ela e eu, somos uma só. Abracei-me a ela e ela conduziu-me para fora daquele pântano. Para as minhas águas, onde navego, com panos de fundo, que variam muito, mas que me confortam (até quando navego envolta em nevoeiro, umas vezes, sereno, outras vezes, menos sereno, ou em tremendas tempestades, com raios poderosos a rasgar o céu, trovoadas, chuvas torrenciais), me serenam e onde me sinto bem.

No próximo ano vou descansar. Até porque tenho muito trabalho pela frente.

Depois, há tanta coisa tão fascinante, não há?

… E eu não sei nada …

 

 

 

 

 

 

publicado por Gabriela às 10:30
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