Terça-feira, 5 de Janeiro de 2010

... MICHINHA ... MICHINA ...

Pari-te naquele dia chuvoso, quando passei a pé em frente a uma vitrine e te vi solta, terna e meiga e os teus olhos, os teus olhos que mais tarde, bem mais tarde, ficaram totalmente brancos, os teus olhos presos a mim, eu a entrar e tu direita a mim, enroscada nas minhas pernas, eu agachada e a parir-te, a lamber-te, a cortar com os dentes um cordão umbilical de outrem que, nesse instante, depois de o engolir era meu e teu, só nosso, esse que mais tarde te fez lamber as minhas feridas, lamber as minhas lágrimas, lamber os meus lábios quando sorria e a minha língua quando a gargalhada se soltava, cordão de amor enlaçado, entrelaçado, entrançado, em e nas noites em que te enroscavas nas minhas pernas, debaixo do edredão e me(te) virava e nem te mexias porque era eu, tu, nós, um corpo só que se virava, o nosso cordão desenlaçado, desentrelaçado, desentraçado, mas sempre nosso, meu e teu, união de amor, cordão de amor enlaçado, entrelaçado, entrançado, um colo meu e tu nele e eu no teu, em posição fetal, as duas, filha querida, catorze anos de amor desde o dia em que te pari sem dor mas a sentir-te sair de mim, o meu corpo a abrir-se, a minha língua a lamber-te, os meus dentes a cortar um cordão de outrem que depois de o engolir era meu e teu, entrelaçou-se, enlaçou-se, entrançou-se em nós e eu a sentir-te ir, o cordão a escorregar, eu a sentir, não sei em que lado, se do teu, se do meu, se no meio, se algures, o cordão, o cordão o quê? A desfazer-se? A escorregar? A despegar-se. É isso…o cordão a despegar-se … eu agarrada a ele, agarra-te a ele, não deixes que ele nos deixe, nos separe, não me deixes, imploro-te, não me deixes, não permitas que te separem de mim, a nossa raça vive dezasseis anos, ainda faltam dois, não vás filha querida, dois anos ainda de cordão, são muitos meses, muitas semanas, muitos dias, tantas e tantas horas de amor, união de amor… e depois é ano novo, é Janeiro de 2010, nenhuma data é boa, nenhum tempo é o certo, mas recuso a tua partida, não te deixes ir, fica comigo … fica comigo filha querida, no meu colo, um colo meu e tu nele e eu no teu, em posição fetal, as duas, tantas e tantas horas, não as podemos perder, são tão nossas, união de amor e não…nenhum momento, nenhuma hora, nenhuma data te dou para me deixares, recuso a tua partida, recuso lamber sozinha a ferida, esta que está a alastrar, a aumentar, já cheia de pus e sangue e dor e ai, dói-me pequenina, dói muito Michina, minha Michina querida..

dói-me tanto …

 

publicado por Gabriela às 15:44
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9 comentários:
De Incógnita a 5 de Janeiro de 2010 às 19:22
Sei como custa, mais do que muitos imaginam. Na minha experiência chorei muito, chorei alto, gemi e chorei mais um pouco. Ele partiu sob as minha mãos, que já não sabiam o que mais fazer se não afagar-lhe o pêlo, como eu sabia que ele gostava, enquanto segurava a vontade de fugir para não ver o que via. Depois parti para a faculdade, como tinha de ser, escondida sob os óculos escuros que nunca uso, e um lenço de papel amachucado. Outros riem, desvalorizam, não entendem, troçam, mas entre nós e eles há uma eternidade de distância que não nos devemos arrepender de ter trilhado.
A Michina foi feliz, bem cuidada, respeitada, teve uma vida digna e tocou o coração de uma família. E é assim que deve ser.
Um abraço.
De Luís a 6 de Janeiro de 2010 às 10:10
Gabriela,
lamento. Sei bem o que custa perder um cão de companhia/família. Custou-me mais a morte de um dos meus cães do que de alguns membros da família.
Forca.
Um beijo
Luís
De Ildamira a 6 de Janeiro de 2010 às 11:31
Acompanho seu blog faz tempo. por regra mesmo, nunca comento.
Mas desta vez é mesmo só para mandar para você "aquele" abraço que um oceano separa mas meu coração não.
Ildamira
De Ana a 6 de Janeiro de 2010 às 12:06
Um abraço
De Anónimo a 6 de Janeiro de 2010 às 15:30
gosto mais de animais que de seres humanos, por isso entendo bem o seu texto.
nestes momentos não há palavras que nos confortem.
De Luísa a 6 de Janeiro de 2010 às 17:52
Olá Gabriela
também eu gosto mais de animais que de seres humanos.
o amor incondicional de um animal de companhia é algo que liga o dono e o animal (principalmente os cães) de uma forma muito forte.
Imagino o quanto deve estar a sofrer. Eu tenho 2 cães e nem quero imaginar como será quando eles partirem.
Um abraço
Luísa
De Anónimo a 8 de Janeiro de 2010 às 14:56
Olá amiga!

Não fique triste caso o pior venha realmente acontecer, pois Micas já cumpriu a missãozinha dela, que foi ser uma companheira da família durante longos anos. Ela já está velhinha demais e precisa descansar!
Você tem que estar feliz, pois tem o sentimento de que cuidou dela com todo carinho até o presente, mesmo depois dela já está doentinha.
beijos
Taíses
De Karina a 18 de Fevereiro de 2010 às 03:18
Lindo! Chorei agora e chorei quando vivi este momento também!
De Gabriela a 18 de Fevereiro de 2010 às 14:50
:-(

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