Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

...

Deixei-vos a todos naquela linha imaginária que traça o regresso às umas quase origens. No ar, ficou o meu aceno, frágil aceno, derreada com o peso da mochila e de chapéu de palha na mão. Dentro de mim os vossos sorrisos, a vossa face de meninas-mulheres (bebés, sempre bebés), eu partida ao meio, em cacos espalhados num chão de mosaico feio e derreada como estava, nem me preocupei em tentar juntá-los. Ainda lá estão… cacos que reflectem o abraço bem apertado junto ao teu corpo de menina com quase 12 anos. E embalei-te comigo, dentro de mim, aconchegada pelas águas calmas ou revoltas, sei lá, do oceano que agora nos separa. A ti deixo-te as vírgulas, as “caninas”, entrave à minha escrita e quase me apetece encarnar no “Adeus Português”, só nessa parte da não pontuação, quando dou por mim com ela na ponta da caneta mas sem saber ao certo onde a colocar. Naquela bolsa interior da mala que tem um fecho de correr, quando vieres, trá-las. Não te esqueças. E o tempo pára às 5 da manhã, já dia, a aragem quente a afagar-me o corpo, enquanto beberico leite com chocolate e fumo, olhar preso ao mar que da minha varanda, na cadeira de plástico, me leva de novo até vós e, há, numa outra cadeira, já não de plástico, enquanto fumo, rodeada de verde, o anúncio da oficina, que me prende o olhar e me faz esboçar sempre um sorriso, “Martelinho de Ouro”. Perco-me no mercado lúgubre e sinistro, as barracas minúsculas cheias de cheiros, uns conhecidos, outros não, aquela Singer preta, enorme e muito, muito velha, mas que já nos ultrapassou a todos na sua imortalidade, apesar de, com certeza, ser oleada nas articulações por modo a retardar o mais possível as artroses. O frasco do óleo será igual ao que existia lá em casa da minha infância, para olear a Singer que, embora da mesma família desta, seria de gerações mais novas? “Senhor, bom dia”, digo, no passeio, entre dois pequenos montes de maçarocas, “isso aí vermelho no saco de plástico é pitanga?” “Não, senhora, não é”. (Há, pelo menos, 40 anos que não voltei a ver pitangas. Natural, o engano, não?). Desvio-me dos entraves no passeio, gente que circula, produtos de todos os géneros, espalhadas ou em monte, para venda, mais à frente uma tampa de esgoto mal vedada, a verter líquido de cheiro nauseabundo, a subir-me e a socar-me as narinas e a brisa, a brisa quente a aquietar-me, “ó gente da minha terra”, eu a tentar atravessar uma rua larga, enorme, não rua, avenida, carros e motas e bicicletas e ónibus e carrinhas e camiões, tudo a dobrar, claro, um olho a direito, outro vesgo que teima em se fixar nos mosaicos onde deixei os cacos, e eu “senhora, bom dia, onde há uma passadeira?”. Era tão longe que desisti e lá fui, não sei se andando, se dançando, uma mistura de passos desajeitados, não ando assim, também não danço assim, e o braço estendido a mandar parar tudo o que circulava, depois os dois braços, porque eram carros e motas e bicicletas e ónibus e carrinhas e camiões, sem ser sequer um trânsito ordenado. A Avenida da República ficou longe, a 2ª Circular mais longe ainda, onde estão as expressões do Bernardo? E o teu telefonema às 5 da manhã, eu a desligar para te tentar ligar, sem conseguir, tu a insistires, eu a desligar, “a miúda vai ficar sem saldo”, por fim a atender e tu zangada porque não atendi à primeira e me querias dizer que estavas cheia de saudades. Eu a dizer-te…”é caro, vais ficar sem saldo” e tu “mas eu tenho saudades tuas” e eu “foda-se”, eu preocupada com o saldo, partida ao meio em cacos, espalhados nos mosaicos do aceno frágil e, mais tarde, no chão mal cheiroso, acho que os vou espalhando por onde passo, e preocupada com o saldo, quando apenas o que queria era ter-te comigo, nem sequer, era falar contigo ao telefone, era ter-te comigo. Entendo tão bem os teus silêncios, embora anseie por te ouvir, é tão difícil ouvir-te, embrulhas-te em silêncio, calas o que consentes e o que não consentes, em vez de gritares, partires a loiça e sofres em silêncio…onde vou estar quando precisares que eu te abrace? …quero-te tanto, pequenina, sol da minha vida. E depois, não sei se há mais porta-moedas esquecidos na caixa do correio e lixo debaixo da mesa da cozinha. Começa a pairar sobre a sua cabeça, nuvens opacas que lhe toldam o raciocínio. E eu, na varanda, às 5 da manhã, a brisa quente a afagar-me o corpo mas não a alma, essa, presa, tal como o olhar, no mar, esse imenso oceano que nos separa, no ar ficou o meu aceno, frágil aceno porque derreada com o peso da mochila, o chapéu de palha na mão e vocês as duas, sem poderem transpor a linha amarela, não a linha imaginária que traça o regresso a umas quase origens, porque essas, também vos correm nas veias, três gerações de imbondeiros, restos dessas raízes são as vossas veias e artérias, no mais profundo do vosso olhar, habita o soba, e eu aqui, ainda aqui, a desejar ser a feiticeira da tribo, lançar um feitiço que estilhaçasse o mundo e o oceano, em raios, trovões, relâmpagos e que, num deles, viesse a impossibilidade da separação, essa palavra que toma forma animalesca, selvagem, brutal, sedenta de sangue e dor e que se incorpora, sem ao menos pedir licença, toma assento, instala-se confortavelmente, sem ao menos “ importa-se que me instale?”. Foi isto que sentiste no porão do navio Europa, não foi? E Nova Zelândia murmura-te ao ouvido. Não oiças. Tapa as orelhas como fazias em pequena quando eu ralhava contigo. Eu tapo também, e, quem sabe, cai um feitiço e estilhaça o mundo e o oceano, em raios, trovões e relâmpagos.
publicado por Gabriela às 13:20
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