Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

...

Dias de quase reclusão num convento em Lagoa Seca, capela sem imagens sangrentas, esculpida em madeira por um índio. E eu que nem sou dessas coisas, sentada nos bancos corridos de madeira, extasiada com aquela beleza, atenta a todos os pormenores, imaginando o índio de escolpa na mão (terá usado escolpa?), debaixo de uma árvore frondosa, traçando veias e artérias na madeira enquanto o espírito de águia voava por entre os deuses do universo, tentando que na arte do índio, não fossem esculpidos os espíritos dos animais, mas sim, imagens de um deus incutido à força, o mais poderoso, aquele que ele foi obrigado a venerar, quase esquecendo os seus, e os dos seus antepassados, mas presentes nos desenhos com figuras desenhadas por si, animais em voo, espíritos livres dos seus antepassados, agora presos na madeira de uma capela católica, num convento, perdido na serra.

Foi aqui, numa noite de lua cheia, sentada no claustro que vi um sapo com 2kg. Nunca tinha visto, como nunca tinha visto diante de mim, numa árvore centenária, centenas de saguins, soltos e livres, subindo e descendo e saltando ramos, descendo o tronco, subindo o tronco e eu a pensar:”que fazem eles? Parecem formigas mas nada trazem de alimentos e eles frenéticos, o meu pensamento frenético, querendo à força entender que loucura era aquela e o porquê daquela agitação e dez minutos depois a noite muito negra, rajadas de vento e água, muita água, em bátegas, varrendo tudo.

Na estrada, poeira e buracos e saltos a cabeça quase a bater no tejadilho, de quando em quando, a bater nos encaixes da janela, os ovários na garganta, o útero perdido algures por entre os metros de intestino, a cobra enorme, morta à paulada no meio da estrada. Que parva, porque escolheu aquele momento para atravessar a rua? Porque não, à noite, quando tudo é pardo e os homens aquietam a violência, pendurados nas redes que fazem de camas? A língua bifurcada de fora, a boca entreaberta, ensanguentada, os olhos verdes, parados e abertos de espanto na morte que lhe chegou, sem ela contar. Ela sábia, esguia, rasteira, habituada a hipnotizar os mais fracos, sem ter conseguido hipnotizar a morte, ludibriar os homens, as casas pobres, sem nada, os pobres sem nada, parados no tempo, sentados nos degraus das portas, o fogo apagado, nada para comer, a vegetação seca, o inhame que ainda nem sequer despontou, crianças sujas, esfomeadas, chutando uma bola feita de trapos e meias, chutando a fome e a miséria, tentando à força, que aqueles pezinhos e aquela bolinha se transformem em ronaldos, ronaldinhos, campos cheios, barriga cheia, casas cheias, não mais fome nem miséria, nem fogo apagado, nem pratos vazios, campos de inhame e aplausos, holofotes em cima, a vida iluminada, conta no bb e a Europa no raio da visão, enquanto a bola, também ela esfomeada, entra, por entre dois paus espetados na terra seca.

Esvazio a mente destas imagens, enquanto mergulho nas águas cálidas, nado debaixo de água, vejo peixinhos de cores brilhantes, apanho conchas, no fundo, bolhas de ar, bruhuh, bruhuh, bruhuh, bruhuh, venho à superfície e por entre as palmeiras carregadas de cocos, as redes de pesca, puxadas à mão, grupos de homens e mulheres, algazarra de vozes, costas dobradas sob um sol escaldante, catando siris, peixinhos do tamanho do dedo mindinho, atirados para um balde, iscos para mais tarde, quando todos, ao invés de se aquietarem nas redes, se fazem ao mar, canoas esculpidas em troncos enormes de árvores, cortadas à machadada e o índio da capela, longe, mas a sua alma de águia altiva planando nos céus.

publicado por Gabriela às 16:52
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Incógnita a 22 de Novembro de 2010 às 20:09
Belíssimo texto. Obrigada pela viagem que acabou de me oferecer.
De Gabriela a 1 de Dezembro de 2010 às 01:50
:-)

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Fevereiro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. ...

. Caracas - Venezuela

. Amsterdan

. Canal do Panamá ...

. La Paz - Bolívia

. Bogotá ...

. ...

. RIP

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ....

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. R.I.P.

. ...

. ...

.arquivos

. Fevereiro 2017

. Junho 2016

. Março 2014

. Dezembro 2013

. Agosto 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Dezembro 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Janeiro 2011

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

.favoritos

. UM TEMPO QUE NÃO PÁRA...

. ...

. PARA NÓS....

. PARA MIM...PARA MIM...E S...

. PORQUÊ?

. VOLTEI À PRAIA

. VEM...

. ESCUTA-ME

. METAMOFORSE

. SOU TEMPESTADE

.links

.Google

blogs SAPO