Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007

A MORTE ANUNCIADA

Dormitava, numa sonolência estranha, na cadeira dura de plástico…ouvia ao longe, a voz, metálica

Senha C, balcão 3 e no placar o número a verde 326.

E o meu sono a confundir-se com o pano de cozinha bordado a ponto cruz, linha azul, furado com uma agulha por entre buraquinhos de pano, onde entrei, primeiro a medo, hesitante, e de repente tragada em fúria para as entranhas da baleia, e eu estarrecida a pensar:

Então, não foi o que aconteceu com o Pinóquio?

Sou eu a história, estou nela, e naúfraga num pedaço de casco de navio, à deriva por entre estômago, rins, intestino, longos corredores de intestino, carregados de entulho e peixe podre a cheirar àquele odor característico de uma morte anunciada mas sempre camuflada por antissépticos e desinfectantes.

E a voz metálica

Senha A, balcão 5 e no placar o número 531

E eu a sair da senha A que não é a minha, a nadar com o meu pedaço de casco a entrar por becos e vielas da corrente sanguínea da baleia. Não da Baleia Santa Ana, da outra, da Baleia Santa Maria.

E nisto, a agulha com o fio azul do ponto cruz suspenso no ar e ela, Santa Maria, mãe de deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte e o Ámen dado, em forma de panfleto, com um não em letras garrafais.

E eu a preferir sair dos becos, a preferir as vielas dos bêbados e putas nas esquinas, o cheiro a vomitado e a sexo, sempre camuflado pelos antissépticos e desinfectantes, encostada ao candeeiro de luz trémula a pensar se seria este o cais e a rejeitar o panfleto do Ámen com o não.

Senha C, balcão 3 e no placar o número a verde 327.

Preciso de encontrar o balcão 3, e a agulha do ponto cruz a mandar-me seguir uma seta que dizia Saída, mas que estava perdida na viela onde o bêbado vomitou bílis verde e a puta riu, um riso sem dentes, gengivas, buracos, os olhos enormes bolas brancas pintadas de rosa choque.

E eu perdida, às voltas por entre vielas de intestinos a pensar na tabuleta saída que me leve até a uma artéria, não daquelas concorridas e cheias de trânsito, uma pouca iluminada, sem cheiro a vomitado, com bêbados e putas mas sem cheiro a vomitado, mas também sem cheiro a antisséptico e desinfectante

Senha E, balcão 1, não vi o número a verde no placar.

E agora?

Santa Maria, mãe de deus, rogai por nós pecadores, a agulha do ponto cruz novamente em suspenso.

E a Santa Ana, não é por aí, as artérias não são avenidas, procura a tabuleta que diz avenida e não essa que diz saída e está perdida, já não sabe indicar, está perdida, ouviu, não a siga.

E eu às voltas, já não nos intestinos mas na corrente sanguínea da baleia, nos becos, vielas e artérias, sem me orientar para a saída da avenida.

Senha C, balcão 3 e no placar o número a verde 328, a voz doce da Sant’Ana de encontro ao meu peito é por ali, venha, é esta avenida, não, essa artéria não, esta avenida que a leva às searas do sul.

E a voz da agulha suspensa no ar, agora e na hora da nossa morte.

E o Ámen?

Esqueceu-se do Ámen.

E eu a adiar … e as searas do sul ao fundo

E eu de encontro a elas. A sair da baleia, o som de um riso que sempre me preencheu, a voz doce a dizer dói e como dói adie

E eu a adiar…

E a cair num sono profundo

publicado por Gabriela às 11:13
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1 comentário:
De santa Ana a 10 de Fevereiro de 2007 às 13:07
Não tenho o dom de escrever co tu o fazes, mas hoje falei com a Baleia Santa Maria, sim, porque ela fala muito comigo, e então deu-me a sugestão de te mandar este poema. Aqui vai:

"Um Verso á Vida"

E eu? Vida!
O que te dei?
Os mil beijos que troquei
Nas estrelas que contei,
Nas mil paixões que embalei
E se esvairam em fumo.

E tu? Vida!
O que me deste?
Fiz de ti um sonhador,
De estórias contador.

Sazonado
pelos anos
Sorvo teu sumo!
Desde o dia
Que me leste
O livro dos desenganos.

A tua Santa Ana que tenta proteger-te assim como a Baleia Santa Maria.

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