Terça-feira, 6 de Março de 2007

IN MEMORIAM

Foi o único homem que eu conheci, que chorou de alegria quando a filha nasceu.

Era uma homem possante, alto, forte, com entradas e uma voz aterradora. A voz dele assustava-me, quando me chamava. Ecoava pela casa, saía pela porta do quintal e apanhava-me em cheio, no meio das asneiras constantes que eu fazia.

Levava-me à escola num minimog aberto e eu adorava ir, agarrada aos ferros e aos saltos no jipe.

Quantas vezes, ao fim do dia, ou aos fins de semana, me dizia de repente: "anda". E, íamos...ao Baleizão. Comprava gelados de cone, de baunilha, enrolava-os em guardanapos e lambíamos os gelados empoleirados no carro. Nunca me deixava comer o cone até ao fim, embora eu, adorasse essa parte do gelado. Dizia que era uma porcaria, porque muitas mãos sujas já teriam pegado nele.

Desmaiou quando me suturaram a testa. Ameaçou quando me engessaram o braço, "se não ficar tudo bem, venho cá e, eu mesmo, lhe parto um braço..."

Ensinou-me a nadar com uma mão espalmada na minha barriga. Era uma mão enorme e eu de bruços a bater os pés, sentia-me segura.

Dava-me segurança...sempre me deu segurança. Alimentava o meu espírito de aventura e dizia que eu era forte, valente e corajosa.

Mais tarde quando eu era uma menina-mulher, ensinei-lhe a escrever com a mão esquerda. Grafismos em papel quadriculado que, ainda hoje, guardo. E fazia-lhe bolas de plasticina para ele exercitar a mão direita. Nessa altura, era eu que assinava por ele documentos importantes, até ele conseguir assinar com a mão esquerda. Os dois sentados à mesa, eu a treinar a assinatura e ele, a amassar a plasticina.

Ofereci-lhe uma bengala para o ajudar a andar, mas ele orgulhoso não usou. Arrastava a perna direita, altivo e sempre possante.

Nunca se sentiu vencido. Pelo menos, nunca o mostrou...

Tinha um humor único. Tantas histórias, absolutamente hilariantes, que eu guardo na minha memória.

Envelhecia de dia para dia. Apaixonou-se por caniches e eu ofereci-lhe um. Escolhemos os dois o nome "Xuxu", em memória de uma cadelinha, que outrora, tinha feito parte da minha infância. Andava com o Xuxu para todo o lado. Eram companheiros inseparáveis.

Falei com ele na véspera, à noite. Estava bem disposto. De manhã, levantou-se, arranjou-se e saiu para ir às compras.

No subterrâneo de um supermercado, ao subir a rampa de acesso, de braço dado com a companheira de toda uma vida em comum, vacilou...

Quando chegou de mansinho ao chão, já tinha partido. Partiu ao lado da mulher que amou durante 50 anos.

Fui buscá-lo à morgue. Estava de fato e gravata, digno e hirto, como sempre o conheci. Acompanhei-o sozinha no carro funerário até à igreja.

Foi a última viagem que fiz com ele de carro. Mas, desta vez, ele não ia a conduzir. Nem íamos no minimog, lamber gelados de baunilha.

Nunca mais me senti forte, valente e corajosa.

 

publicado por Gabriela às 16:02
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