Quinta-feira, 19 de Abril de 2007

MEA CULPA

Não tens culpa.

Julgas, acaso, que eu não sei que a culpa é minha?

Até te digo porquê.

É que não consigo afastar a imagem diária, da decomposição do gato preto, na berma da estrada. Diariamente, vejo o lento processo de decomposição.

Entendes?

É uma imagem que está sempre presente.

Como está o som da porta a bater a ressoar nos meus ouvidos.

E aquela, onde eu estou, abraçada ao pinhal novo.

Havia trilhos no chão, no meio da caruma que eu comi aos punhados, a boca cheia, eu a engasgar-me e a vomitar terra seca e caruma, na ânsia de conter as lágrimas.

Que não consegui…

E era caruma, terra, lágrimas e gritos

Gritos a ecoarem por entre os trilhos de ferro que te levavam para lá das searas do sul.

Talvez, um dia, te encontre

Entre o som da porta a bater, o céu azul em olhos, no meio de uma estação coberta de neve.

Só que primeiro, tenho que conseguir apagar a imagem do gato preto em decomposição.

Não vai acontecer, aviso-te já.

Quando só ficar o tapete preto de pele colado ao chão, terei de ter a coragem de sair do carro e raspá-lo.

E como tão bem sabes, jamais terei a coragem de o fazer.

É que sinto em mim a espanca

Que me espanca.

Brutalmente.

Artefacto medieval, esmaga polegares, que em mim, me esmaga o peito.

E sempre, sempre o meu peito rasgado.

Sempre sangue a escorrer nos trilhos onde estou abraçada ao pinhal novo, atrás do som da porta a bater e dos olhos…

O céu azul em olhos,

E os olhos negros do mouro, quente oásis do deserto, miragem do al garbe.

E a voz quente que me envolve, apesar do peso da solidão “que me pesa como um casaco molhado”.

E rastos meus perdidos

E bocados de mim ao acaso

E entranhas feridas

E o útero em sangue de tanto me parir

E nasço e morro e renasço e volto a morrer

Constantemente

Já não há um tempo intermédio

perdi-o, faz tanto tempo.

Tenho uma alma moribunda e as palavras que, ainda articulo, são preces, últimos pedidos de uma condenada a uma morte lenta de asfixia.

A boca aberta como um peixe, o ar que preciso no peito e não tenho

FEV 65%.

Não digas nada.

Para quê palavras, quando acabei de te dizer, que a culpa é minha e do gato preto a decompor-se na berma da estrada?

Deixa-me assim.

Gosto do meu sangue.

É pegajoso, cola-se a mim, mas é quente e húmido.

É o vermelho verdadeiro de entre todos os vermelhos.

Já o viste em fundo branco?

Não existe imagem mais sublime.

Nos dois primeiros dias do gato preto, o vermelho do sangue dele, estava lá.

Via-se. Eu vi.

Será que o bebi?

Seria o líquido amniótico do meu nascer, que bebi logo, todo, para dele nada restar, se bem que, apesar da gula animalesca, pingaram gotas?

Deve ser, por isso, que me encontras, tantas vezes, nos telhados quentes de zinco, a miar, aquele miado, grito da noite, que ecoa para além do outro lado da lua.

Onde te espero

E onde não consegues ir

Vislumbras o olhar, olhos verdes de gata.

Só.

Eu sei…

Não precisas de te desculpar, dizendo que sou eu que me escondo.

Claro que me escondo. Gosto de me esconder atrás da minha sombra

E porquê? Também te digo. Hoje, até te digo tudo.

Porque ela me encontra quando estou perdida e moribunda.

Apenas ela…

E é só com ela que quero estar.

E morrer nos braços dela…

Que são do tamanho do mundo…

publicado por Gabriela às 13:36
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