Sábado, 21 de Abril de 2007

ELOS QUE SE QUEREM CORTAR

Comi o frango mal passado

E a cada garfada, ouvi o carcarejar em agonia

Incomodou-me

Perturbou-me

É que eu também costumo pôr ovos,

qual império dos sentidos

Ovos que não sei chocar, que não quero chocar

Porque a ninhada não me segue...

Nem me chegam a ver

Ando às voltas no milheiral,

Em percursos labirínticos

E só assim consigo que me deixem

Preciso que me deixem

Preciso que saibam, todos,

que quero que me deixem

deixem-me

repito, grito

gritos abafados que me morrem na garganta

e que ninguém ouve

são tantos os sinais...

tenho um colado:

“cuidado com os cães”

Tenho outro, em seta vermelha:

“Saída”

Apesar de insistir em ouvir o caracarejar de agonia do frango

ando cega pela casa,

Incontinente,

De encontro ao desumidificador

E já não choco ovos

Lato...

Vou latindo

E uivando

Cheiro as esquinas, alço a pata, marco território

Que não quero

Que rejeito

Que insistem em me demarcarem

Não tenho dono, nem coleira anti pulga

Sou errante

Rafeira, escanzelada e errante pelas e nas lezírias ribatejanas

Sem olfacto

Qual é a solução?

Não tenho solução

A solução está, algures, perdida em mim

Eu sou a solução, mas não a tenho

Nunca a tive, não a conheço tão pouco:

...“Prazer, sou a solução”.

...“O prazer é todo meu, mas não a conheço...”

Se calhar, basta quebrar os elos

Apanhar no milheiral um saco de plástico com asas

E ir ao encontro de uma portada de um stand

Dos de topo de gama.

Ou dos outros

Aqueles das carcaças, esqueletos de ferro torcidos, das sucatas

Nem preciso de um carrinho de bebé, desconchavado, cheio de sacos de plástico de asas, pesados de nada e latas vazias e amachucadas de coca-cola

Ou de um carrinho de hipermercado

São tantos...

Jamais conseguirei decidir-me por um

Basta-me o saco de plástico, com asas

Mas vazio. Faço questão. Pesado de vazio e de nada.

A solução reside aí.

Sinto a tua falta...

Também sinto a falta do toque do telefone que confundo com a música do rádio

Sinto outra falta

A do teu perfil

Já não sei desenhá-lo

Tento com o dedo, no vazio do espaço carregado de átomos

E perco-me nos contornos...

Desenho-te o nariz na testa e um olho na boca, esta retorcida no lugar da orelha

Porque os teus olhos não me seguem

Estão presos em visores, páginas iluminadas que te ferem a vista

Os teus olhos raiados

Vermelhos, laivos de sangue

A minha falta desenhada no teu olhar...

E forço-me a comer frango

que não quero

Tenho dificuldade em o engolir

Tão pouco consigo

Quero dizer-te...olhos nos olhos

Mas, para isso, preciso primeiro de arrotar

Ensina-me a arrotar

Só sei vomitar

A cabeça enfiada no fundo da sanita, enquanto a abraço

Tornando-a minha, fazendo-a parte de mim

De resto, nascemos todos entre a urina e as fezes

Somos todos nauseabundos, imundos, putrefactos

Cheiramos mal dos pés, da boca, dos sovacos, temos ramelas, ranho, cagaitas, cera amarela nos ouvidos, cuspo branco no canto dos lábios

Mal de nós se abrirmos as pernas

Mas eu vomito

E gosto do teu cheiro a cavalo

Que não tens

Mas que eu gosto

Imploro-te:

Cheira a cavalo para mim

E continuo incontinente pela casa, marco territórios de pata alçada, sem fronteiras, cega e sem olfacto

E num rasgo, passo a esfregona com sonasol

Porque o algodão não engana

Algodão em fio, casulos tecidos em teares de mil fios

Fios que não me trazem a tua voz

Preciso de quebrar os elos

Ajuda-me

Quebra-os por mim

Abraça-me de encontro ao teu peito

A minha face encostada ao bater forte do teu coração

Enrosca-me no teu colo, embala-me, proteje-me

Até eu poder partir...

Serena, com um sorriso doce

Desenhado para sempre nos lábios

Cerra-me as pálpebras

Carícia última de veludo

Mas antes...

Deixa-me balbuciar:

...perdoem-me...

 

publicado por Gabriela às 00:38
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