Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007

PORQUÊ?

Nunca partilhas o software.

Porquê?

Pergunta “a menina de olhos meigos, a tresandar a dogparfum”, enquanto continuas na asa do avião pronto para os teus voos e olhares de cima, o rio tranquilo onde sempre mergulhaste.

Sim. Eu sei. A menina sussurrou-me aos ouvidos que os afluentes que se desviam, desaguam sempre no mesmo leito.

E ao longe, “o acordeon, ganindo notas <canta y no llores, por que cantando se alegran, cielito lindo, los corazones>”

No deseo llorar, deseo volar, cielito lindo, y animar mi corazón.

Antes de volar, recupera os ficheiros, arrasta-os para a pasta do sempre, enquanto me colocas “a máscara do oxigénio e me dás os comprimidos coloridos da cor da amizade, misturados com o ficheiro do amor”.

Estarei na ribeira, naquela onde sempre estive, sentada, com pombos nos olhos e nos cabelos, a fazer brincos de cerejas, rodeada de cartões de frigorífico desmantelados marca Bosh e de rolos de cobertores de papa, cigarros avulsos espalhados e um pacote de líquido tinto vermelho sem rótulo. Não tenho caroços de sangue nas mãos, mas tenho compressas de gaze absorventes no fundo da garganta.

Aceno-te da margem do rio e faço “downloads de ternura” com os quais encho sacos de serapilheira, sempre insuficientes, para travar os desvios dos afluentes, as tempestades que extravasam as águas e arrastam consigo, misturados em lama e detritos, os ficheiros do amor.

Don’t stop, don’t stop to dance… e eu estremeço, em convulsões ao som de raves violentas, estridentes e… não, não stop to dance, “cantando-se alegran, los corazones”, no deseo llorar, deseo volar en sus brazos, e empurras até ao fundo da minha garganta “o antibiótico, num frasco de soro com duas pedras de gelo” enquanto me agito com as batidas da rave, que já não é rave, são os ventrículos em espasmos, cardiopatias em delíriums tremens, golfadas de sangue e músculos, em enxurradas, que me arrastam, me sufocam, me engasgam. E eu exangue de olhos esbugalhados a contemplar el cielito lindo.

Canta e no llores e já sem ou, com lágrimas no copo, elimina da reciclagem o ficheiro da “girl de olhar meigo com uma enorme esperança de vida”, enquanto me banho nas margens da ribeira de Ode a louca e aceno sem forças ao Arade.

Onde ficam os tempos ritmados ao som da dor e do silêncio, em que a formatação do disco se perde nos acordes da câmara, outrora coberta com um pano azul, e agora um tão colorido, onde o vitral de olhos cor do mar descansava, cansado da corrente do rio, dos afluentes, das correrias pelas encostas?

Show must go on, digo ao longe na asa do avião e eu perdida, sem para quedas, porque não, não deseo volar. Aperta-me, dá-me calor, lê o livro que escrevi para ti, enquanto engolia luas e descascava sóis, empoleirada não na asa do avião, mas em arco-íris e em algodões de nuvens, páginas e páginas, capítulos inteiros, lambe o dedo e folheia-o, não tem The End, e é só um bocadinho chato, muitos dos capítulos têm páginas em branco e, outros, hieróglifos escritos com sangue, pacto de amor, e até podes saltar esses. De resto, sobram só aquelas que têm manuscritas o Prefácio, Introdução e Posfácio e, nem sequer, é por essa ordem.

E ao longe, “o acordeon, ganindo notas <canta y no llores, por que cantando se alegran, cielito lindo, los corazones>”

Nos teus olhos geométricos da cor do céu, onde cego de amor, continuo a surgir como “uma sombra com dois sacos de papel de solidão”.

publicado por Gabriela às 14:12
link | favorito
De Anónimo a 26 de Janeiro de 2007 às 20:45
Simplesmente genial....
Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 


.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Fevereiro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. ...

. Caracas - Venezuela

. Amsterdan

. Canal do Panamá ...

. La Paz - Bolívia

. Bogotá ...

. ...

. RIP

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ....

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. ...

. R.I.P.

. ...

. ...

.arquivos

. Fevereiro 2017

. Junho 2016

. Março 2014

. Dezembro 2013

. Agosto 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Dezembro 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Janeiro 2011

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Setembro 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

.favoritos

. UM TEMPO QUE NÃO PÁRA...

. ...

. PARA NÓS....

. PARA MIM...PARA MIM...E S...

. PORQUÊ?

. VOLTEI À PRAIA

. VEM...

. ESCUTA-ME

. METAMOFORSE

. SOU TEMPESTADE

.links

blogs SAPO